Tudo Começou no Sábado – Adultério, aborto e alcoolismo na New Wave Britânica

Ao final de década de 50, o cinema britânico começava a demonstrar sinais de revitalização. Um grupo de críticos vindos da Universidade de Oxford e que posteriormente passaram a escrever para a revista Sight and Sound tomaram a atitude de trocar as máquinas de escrever por câmeras. Lindsay Anderson, Tony Richardson, Gavin Lambert e Karel Reisz em seus primeiros filmes resolveram retratar a região norte do país, em obras que adaptavam romances e peças de teatro enfocando os dramas da classe trabalhadora. Jovens que só tinham como opções de diversão trabalhar, beber, fazer sexo e morrer, não necessariamente nessa ordem.

Essa New Wave Britânica foi considerada por críticos da época como uma espécie de movimento falso, porque se tratavam de cineastas vindos da classe média que tentavam criar uma falsa autenticidade retratando uma realidade alheia às suas vidas. Mas o marco inicial desse movimento veio mesmo do sucesso de bilheteria de Almas em Leilão (Room at the Top, 1959), de Jack Clayton, um diretor que não tinha ligação alguma com o quarteto de Oxford.

O movimento durou pouco, mas influenciou bastante o cinema britânico. Tudo Começou no Sábado (Saturday Night and Sunday Morning, 1960), dirigido por Karel Reisz, é uma das obras mais marcantes dessa safra. Adaptando um livro de Alan Sillitoe, tem como protagonista Arthur Seaton (Albert Finney), um jovem operário que se orgulha de nunca se deixar ser oprimido pelo sistema, mantendo uma atitude diferente de seus colegas de trabalho e de seu pai, pessoas que já se conformaram e que apenas deixam a vida passar. “Tudo o que eu quero é me divertir. O resto é propaganda”, deixa claro.

O filme passa longe do politicamente correto até mesmo ou principalmente para os dias de hoje, trazendo temas como adultério, aborto, violência e alcoolismo. Seaton mantém um caso com uma mulher mais velha, Brenda (Rachel Roberts), que é casada com um colega de trabalho. Ainda começa um relacionamento com Doreen (Shirley Anne Field), que conhece no balcão de um bar, tipo de ambiente no qual passa a maior parte dos finais de semana. Sua filosofia de vida é bastante simples: “Não deixe os bastardos oprimirem você”. Não parece se importar com mais ninguém além de si, fazendo o tipo de rebelde cínico que tem habilidade suficiente para saber até onde pode puxar a corda antes que o peso desabe sobre ele. Ao mesmo tempo em que provoca o supervisor com frases irônicas e prega peças como colocar um rato morto na bancada de uma colega, age de forma condescendente com todos. “Tudo o que acham que eu sou, é exatamente o que não sou.”

Trabalha o suficiente para cumprir sua meta, nunca além. Às sextas feiras, recebe o pagamento e, tal qual um Tony Manero, veste seu melhor terno e vai ao pub, onde desafia qualquer um que ache que pode beber mais que ele. Em casa, apesar do relacionamento respeitoso com a família, vê todos como se estivessem mortos da cabeça para cima. O pai passa o tempo livre na televisão. A mãe, nas tarefas domésticas. É exatamente esse tipo de armadilha que ele tenta evitar ao se recusar a assumir compromisso com alguém.

O sistema de Arthur começa a desabar quando sua amante fica grávida e o romance proibido é descoberto. O casal decide pelo aborto, mas enfrentam várias dificuldades para conseguir realizar o procedimento. A partir de então, ele começa a se deixar levar pela possibilidade de se juntar ao resto da sociedade assumindo de vez um relacionamento sério com Doreen.

Com uma narrativa dinâmica e especialmente diálogos interessantes, o filme consegue capturar facilmente a atenção do espectador, o levando à Nottingham do final da década de 1950, mostrando situações comuns como jovens paquerando em pubs, pescando ou ainda as dificuldades em driblar a vigilância de uma mãe para conseguir alguns momentos a sós com a filha dela. Além disso, o filme é bastante divertido, especialmente por conta da extrema cara de pau do Arthur em mentir descaradamente para todo mundo em todas as situações. Ainda que falastrão e fanfarrão, Arthur consegue ser carismático e humano, principalmente humano, com todos os seus defeitos. Mas os momentos mais hilários são as intrigas dele com a vizinha fofoqueira da rua. Seaton chega a atirar nela com uma arma de chumbinho após várias desavenças.

A obra causou polêmica por conta de cenas de Arthur com a amante. Estar na cama de uma mulher casada era um tabu forte na época, não que hoje tenha se tornado um comportamento bonito, apenas caiu no comum. Filmado em seis semanas, Tudo Começou no Sábado atingiu a terceira maior bilheteria do ano no cinema britânico. Apesar da data e de ser preto e branco, não causa nenhum desconforto visual ou narrativo para as novas gerações que tenham interesse em ver uma obra original, com um estilo quase que documental, indo além da fantasia hollywoodiana.

O produtor foi Harry Saltzman, que comprou os diretos de filmagem do livro de Alan Sillitoe. Mais tarde, em 1962, se tornaria um dos produtores dos filmes de James Bond. Sillitoe cresceu nos subúrbios de Nottingham, e Arthur trabalha na mesma fábrica na qual seu pai trabalhou. Esse tipo de detalhe e as locações reais explicam a autenticidade do filme, que era uma das características da New Wave Britânica.  O escritor foi autor também de outros livros que ganharam adaptações cinematográficas na época, como The Loneliness of the Long Distance Runner (1962), onde um garoto de reformatório encontra na corrida uma chance para conseguir se sobressair mas, ao contrário de Seaton, é furioso demais para dissimular e fazer parte de qualquer tipo de sistema.

A performance enérgica de Albert Finney em seu primeiro papel principal impressionou críticos e espectadores. Já em 1963 ele ganharia sua primeira indicação ao Oscar de melhor ator em As Aventuras de Tom Jones (Tom Jones, 1963).  Ainda seria indicado mais 4 vezes durante sua carreira.

Arthur não é um revolucionário, mas um inconformado beligerante que encara uma luta solitária por opção para escapar à sua própria maneira da opressão do sistema no qual está inserido. Você pode tentar resistir, mas uma hora ou outra você termina simplesmente aderindo aos padrões sociais. No final, assim como Seaton, você só vai querer descer o morro em direção ao resto da humanidade e se tornar mais um. Morto da cabeça para cima.

 

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