Jogo Cego – um réquiem ao fim da contracultura americana

Em um mundo no qual os elefantes são perseguidos por homens nos céus, as pessoas querem apenas ficar chapadas.

Uma adaptação do livro Dog Soldiers, escrito por Robert Stone e publicado em 1974, Jogo Cego (Who’ll Stop The Rain, 1978) saiu junto a mais uma fornada de filmes realistas carregados de críticas contra a guerra do Vietnã, como Inferno Sem Saída (Go Tell the Spartans, 1978) e Amargo Regresso (Coming Home, 1978). À época do lançamento do livro, o país ainda convulsionava pelo choque de gerações entre cidadãos que lamentavam o acordo da retirada de tropas assinado no ano anterior e a juventude que protestava pelo fim do conflito que terminou por tirar oficialmente a vida de 55 mil soldados estadunidenses e mais de um milhão de combatentes vietnamitas.

Hollywood, na época tomada por uma nova geração de diretores que conseguiram tirar temporariamente o mando de campo dos grandes estúdios, produzia filmes que contestavam as grandes verdades americanas, como a propagada garantia de liberdade e o patriotismo cego. Era a vez de os jovens ditarem as escolhas do país, ainda que em uma espécie de trilha sem destino.

Karel Reisz, cineasta inglês que dirigiu Tudo Começou Num Sábado (Saturday Night and Sunday Morning, 1960), uma das obras que marcaram a new wave britânica, uma espécie de ressurgimento do cinema na Inglaterra, assumiu a direção da produção da United Artists, tendo Nick Nolte como astro principal.

John Converse (Michael Moriarty) esteve nas selvas vietnamitas como fotógrafo e repórter, presenciando em primeira pessoa a barbárie cometida por ambos os lados, o que o deixou transtornado de várias formas. Converse relata em uma carta para sua esposa como o governo decidiu bombardear elefantes por estes serem usados pelos vietcongues para transporte de carga e como tudo o que vivenciou na selva o fez perder qualquer sentido de moralidade, decidindo então também se utilizar da guerra em benefício próprio, com percebe que figuras do alto escalão do governo também estão fazendo. São justamente a desilusão, a ganância e um pouco de revolta pessoal as engrenagens que movimentam a trama deste filme.

Assim se justificando, Converse faz contatos com traficantes e convence seu amigo, o soldado Ray Hicks (Nick Nolte), a transportar 2 Kg de heroína em sua volta para casa. Hicks está se retirando da guerra, junto com as demais tropas dos Estados Unidos, e pretende deixar o exército para trás.

O trabalho se mostra complicado quando Ray percebe que um grupo de policiais corruptos pretende interceptar a droga, começando então uma fuga desesperada levando junto a esposa de Converse, Marge (Tuesday Weld). A perseguição termina em uma espécie de refúgio hippie nas montanhas, onde a tragédia, a violência e a dor atingem a todos os envolvidos conduzindo a um final típico da Nova Hollywood, amargo e indigesto, com derramamento de sangue e ruína para todos os personagens, conclusão de um tão bem construído clima de desespero crescente ao longo do filme.

O que parecia um simples roteiro de ação que leva a um combate final estilo Rambo, consegue ir além do óbvio, principalmente pelo esmero na elaboração dos personagens, especialidade do diretor Reisz. Ricks saiu da guerra para encontrar em seu país oponentes tão selvagens quanto os que combatia nas florestas, compatriotas munidos de insígnias mas dispostos a utilizar de tortura e assassinato em nome da ganância e do lucro, ainda que todos os envolvidos buscassem seus próprios ganhos pessoais.

O final apresenta os protagonistas como personagens de fim da era da hegemonia da contracultura nos Estados Unidos, caçados por representantes da antiga cultura, prontos para retomar o poder esmagando aqueles que tentaram se opor ao establishment, mais um indício de que a retirada do conflito do Vietnã não significaria um sinal de novos tempos para o modo de agir americano, mas apenas um realinhamento das forças opressoras.

Nenhum personagem é exatamente linear. Converse praticamente obrigou o amigo a transportar a droga, sob pena de desagradar os receptadores. Colocou em risco as vidas do filho e da esposa. Durante a fuga, Hicks desperta o vício nela, a estimulando a consumir a heroína que a deixa parcialmente dopada a maior parte do tempo. Alguém que agira de forma insensível e egoísta, capaz de planejar friamente a morte de viciados, o personagem de Nick Nolte assume mais uma vez o papel de guerreiro para salvar seus companheiros quando poderia simplesmente ter ido embora.

Sobre a canção que dá o nome original ao filme, inicialmente estava prevista alguma música do Grateful Dead, famosa banda de São Francisco, mas os produtores optaram por um grupo mais comercial e entrou o Creedence Clearwater Revival com a faixa Who’ll Stop The Rain. A música foi inspirada pela visão de pessoas nuas, pulando e cantando na chuva e na lama durante a apresentação da banda no festival de Woodstock.

John Fogerty, principal compositor do grupo, elaborou uma letra que tecia uma crítica feroz contra a guerra do Vietnã, onde chuvas do desfolhante conhecido como agente laranja destruía a vegetação, apodrecendo raízes e o solo. A canção questiona se surgirá alguém capaz de parar a tormenta de bombas e compostos químicos, alguém que poderia fazer o sol brilhar novamente como um sinal de esperança. A música surge em mais de uma cena do filme, funcionando como uma espécie de ênfase que considero desnecessária. Outras canções de grupos da época se intercalam, como o Spencer Davis Group e Don Mclean.

Jogo Cego não está entre as produções mais famosas entre os tantos filmes que foram realizados tendo o Vietnã como plano de fundo, mas possui uma direção competente e um roteiro repleto de simbolismos e personagens críveis, permitindo a Nick Nolte entregar um belo desempenho em seu papel.

 

Jogo Cego (Who’ll Stop The Rain, 1978)
Diretor: Karel Reisz
Gênero: Ação; Drama; Crime
Duração: 2h6m

4 Comments on “Jogo Cego – um réquiem ao fim da contracultura americana”

  1. Oi.
    Não li “The dog soldiers” e muito por isso talvez não tenha entendido como os policiais chegaram tão rapidamente ao plano de tráfico armado entre Ray e Converse. Será que perdi alguma passagem mais importante do filme ou será “um furo sem conserto” do roteiro?
    Gosto de Creedence: Who’ll stop the rain é uma bela canção, não sei se está assim demais na trama.
    Obrigado.

    1. De fato, creio que o filme não deixou isso claro mesmo. Não consideraria exatamente um “furo” do roteiro porque não chega a comprometer a narrativa. Possivelmente até ignoraram esse detalhe de propósito. Sobre a música do Creedence, pessoalmente acho muito animada para o clima de desespero que se forma ao longo da história, apesar do teor da letra se encaixar perfeitamente. Ela meio que quebra um pouco esse clima, e mais de uma vez. (Mas também curto a banda)

  2. Não quero ser convincente sobre como me pareceu o filme, mas JOGO CEGO seria melhor se a participação desses policiais fosse “alguma coisa apenas” explicada. Até a altura de a casa dos Converse ser invadida, nem dá para saber direito que os caras são policiais!
    Há um filme, do mesmo ano inclusive, que também trata de um ex-ativista (ou pacifista) em desordem com o andamento da vida pós-Vietnã, embora, nesta história, o protagonista não seja um veterano de guerra. O título é O GRANDE ENGANO (The big fix), e traz Richard Dreyfuss (um grande acerto!) no papel principal.
    Não sei se você já viu e, se tendo visto, gostou, mas para mim estão muito parelhas as figuras de cada um dos protagonistas desses dois filmes.
    Uma última coisa: venho tentando levantar o título de uma história a que assisti, faz um bocado de tempo, numa madrugada da Globo. A trama é sobre um jovem que, para fugir do alistamento obrigatório (penso que fosse para a Guerra do Vietnã), esconde-se numa espécie de propriedade rural, lugar em que acaba por consertar uma motocicleta, a qual – tudo por minha lembrança – ocupará posição destacada na narrativa. Você teria visto esse filme?

    1. O Grande Engano não vi ainda. Anotado.
      Sobre esse que tá tentando recordar o nome, não bateu com nenhum que eu tenha visto.

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