Master of None – uma série para a geração millennial

Master of None é o tipo de produto cutural que pode passar despercebido fácil nessa era de entretenimento fácil e superficial. Para pessoas que estão na faixa etária dos 30 anos, aqueles que já passaram da idade adulta, mas ainda não parecem ter tomado todas as decisões importantes da vida, essa comédia com tons dramáticos tem um apelo irresistível. O estranho título é uma expressão usada para designar alguém que tem várias habilidades ao invés de se especializar em apenas uma. Um tipo de indeciso que hora parece ter certeza do que quer, hora quer o que não pode ter e segue em frente tentando na esperança de não ser tarde demais.

A série narra episódios da vida de Dev Shah (Aziz Ansari), um descendente de indianos que mora em Nova York e, aos 30 anos, tenta seguir a carreira de ator após ter participado de um comercial que fez muito sucesso. Entre uma audição e outra, Dev anda pela cidade, frequenta restaurantes, lanchonetes, festas e bares, sozinho ou junto a um pequeno grupo de amigos, cada qual com estilos bem peculiares. Tem a Denise (Lena Waithe), uma negra lésbica, o Arnold (Eric Wareheim), um gigante gentil, e Brian (Kelvin Yu), um playboy galã descendente de tailandeses. Funcionam como apoio e conselheiros em todos os momentos, adicionando diversidade e ajudando a espalhar novos pontos de vista sobre vários temas.

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Dev passa por situações do dia a dia que fazem parte da rotina da maioria dos adultos, mas que geralmente são ignoradas. Às vezes os personagens até parecem monges zen, revelando aspectos da vida que ninguém mais parece fazer questão de perceber, encontrando novos modos de interagir e se conectar com as pessoas em uma sociedade que acelera cada vez mais as diferenças entre as gerações. Temas como paternidade, discriminação racial e sexual, relacionamentos amorosos, tratamento com os idosos, ou o que fazer ou não em certas situações como quando alguém fura a fila da sorveteria, ou você se depara com um maníaco se masturbando dentro de um metrô lotado são explorados.

O espectador fatalmente acaba vendo um pouco do próprio reflexo em alguma das situações apresentadas ao longo da série. Quem nunca se apaixonou por uma pessoa comprometida, interpretou errado as intenções de alguém, entrou em um trabalho frustrante ou já teve conflitos com as tradições familiares?

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O estilo narrativo de alguns episódios varia um pouco, como o primeiro da segunda temporada, uma espécie de homenagem ao clássico italiano Ladrões de Bicicleta, de Vittorio De Sica, ou um outro que faz uma espécie de passeio pelos trabalhadores imigrantes de Nova York, pulando de personagem em personagem até voltar ao Dev e sua turma, todos se encontrando em um cinema para assistir a um filme estrelado por Nicolas Cage.

Todo mundo parece concordar que Master of None é uma série que transborda autenticidade. A culpa é de uma das mentes por trás das câmeras, ou do rosto à frente delas. Aziz Ansari, co-criador da série ao lado de Alan Yang, é roteirista e também o astro principal. Vindo dos palcos de stand-up, participou da série Parks & Recreation, fez alguns filmes de comédia e atualmente experimenta o reconhecimento por Master of None, onde diz ter misturado um pouco do Woody Allen da década de 70 com o humor sombrio das obras de Hal Ashby (diretor de Ensina-me a Viver, A Última Missão e Shampoo) para chegar no tom certo.

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Aparentemente, Ansari mescla suas experiências pessoais com um pouco de ficção, formando histórias que soam autênticas com personagens extremamente carismáticos e diálogos que soam naturais. Os atores e atrizes fogem bastante do padrão hollywoodiano, o que ajuda a fortalecer ainda mais o teor de universalidade dos temas, reforçando a imagem de Nova York como centro multicultural e étnico do mundo.

Dev é um cara que parece estar pronto para dar o próximo passo na vida que, condizente com os de sua geração, ocorre de forma mais tardia. Ele busca o “algo real”. No final, é só mais um cara solitário procurando respostas que todo mundo ao seu redor aparenta ter encontrado. O mundo moderno, com toda a tecnologia que oferece, parece complicar qualquer tipo de situação. Até a escolha por um local para comer tacos parece mais difícil com a ajuda de aplicativos, imagine quando envolve relacionamentos amorosos.

Contando com duas temporadas de 10 episódios cada, Master of None se destacou na grade da Netflix rendendo uma chuva de críticas positivas em sites especializados. Recebeu ao todo 49 indicações em vários festivais e premiações, ganhando 19 delas, incluindo dois Emmys por Melhor Roteiro em Série de Comédia.

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Com o fim da segunda temporada, inclusive um final que deve ter deixado muitos fãs de cabelo em pé discutindo o que aconteceu ou não, Ansari e Yang dizem não saber se haverá uma sequência. Ansari declarou ao Hollywood Reporter que irá eventualmente escrever algo, mas que apenas quando sentir ser o momento certo. “Eu tenho de me tornar alguém diferente antes de escrever uma terceira temporada, em minha opinião. Tenho de me casar, ou ter um filho ou algo assim. Não tenho mais nada a dizer sobre ser um cara solteiro em Nova York e viver comendo em todos os lugares da cidade.”

A recusa do ator por aproveitar o sucesso do projeto e continuar produzindo episódios, indo contra a correnteza da indústria do entretenimento, se recusando a comprometer a qualidade de sua obra apenas para atender a demanda por lucro é o tipo de atitude que confirma o compromisso de Master of None com a autenticidade, algo que reflete diretamente a personalidade de Dev, comprovando que criador e criatura fazem parte de um mesmo ser.

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