Paul em Casa

Em uma ida descompromissada ao sebo encontrei jogado pelo chão a HQ “Paul em Casa”, de Michel Rabagliati, lançada aqui pela editora Comix Zone. Já tinha noção da linha editorial da CZ, mas desconhecia completamente aquele trabalho e autor. Contracapa, folhas internas, não havia nem sinopse nem referência alguma sobre a história. Ainda assim era algo diferente para ler e parti para pechinchar o valor. 

Consegui levar por R$ 35,00 reais. Mais tarde conferi na Amazon e estava em promoção por R$ 50,00. Ainda é possível comprar gibi ‘barato’ em alguns espaços mágicos. 

Não sou do tipo moderno que forma uma pilha de leitura de HQ’s e diz por aí tentando passar um ar pesaroso para esconder o real sentimento. Li o álbum no mesmo dia da compra. Bateu aquela sensação de deja vu da primeira à última página. 

Michel Rabagliati é um quadrinista canadense, residente em Quebec. Era designer gráfico e abandonou a profissão para escrever e desenhar quadrinhos em tempo integral. Até isso é uma história semelhante a tantas já vistas na França, Canadá, Bélgica e etc. Praticamente todos os seus trabalhos são sobre ele mesmo, com títulos como “Paul em Quebec”, “Paul se junta aos escoteiros”, “Paul sai de casa”, “Paul no parque”…

Não costumo consumir esse tipo de quadrinho alternativo, mais por uma questão financeira que por quaisquer outros motivos. Pelos poucos que li já deu pra perceber um padrão estranho. 

Os autores retratam protagonistas comuns (eles mesmos) imersos em uma vida que varia entre a depressão clínica e o simples tédio. Se você estiver triste, a leitura te deixa mais triste. Foi assim com Retalhos de Craig Thompson, com Duas Vidas de Fabien Toulmé, com Entre Umas e Outras de Julia Wertz e com a série O Árabe do Futuro de Riad Sattouf. A diferença é que a Wertz emprega pesadas doses de ironia e humor negro que aliviam as situações tornando tudo hilário e que os relatos de Sattouf são meio chocantes de tão absurdos mas, por isso mesmo, involuntariamente engraçados. A comédia do choque de culturas e épocas. 

Também tenha sido assim até com Maus de Art Spiegelman. São todos autores sendo autênticos relatando partes de suas próprias vidas, e todos os protagonistas têm uma pesada aura de melancolia. Talvez sejam até vampiros sociais. 

Quanto à arte, os desenhos de todos possuem estilos cartunescos, com traços bem simples, mas extremamente funcionais e eficientes. Passa a impressão que qualquer um pode desenhar e contar sua própria história. É um autoengano trivial, mas é estimulante pensar assim. Nos faz sentirmos como crianças. 

O “Paul em Casa” de Rabagliati mostra a vida de um homem de pouco mais de cinquenta anos que, divorciado, sente falta da ex-esposa e da filha. Sua árvore está morrendo, seu cabelo está caindo, a água da piscina é escura e seus vizinhos são mais chatos e solitários que ele. Sofre de apneia, o que atrapalha seu sono e o deixa esgotado logo que acorda. É só desgraça do início ao fim. Não há nenhum glamour na vida de quadrinista. 

Se fosse um filme ou um livro, seria horrível de acompanhar, mas sendo uma história em quadrinhos com traços agradáveis e narrativa contínua, a gente permanece imerso na leitura. Nem tente torcer por um final minimamente otimista. Ele não vem. Acabam o leitor e o protagonista abraçados na mesma merda. 

Sempre que acontecer de encontrar por aí algo que você não costuma ler e esteja por um bom preço, arrisque-se. 

Paul em Casa
Autor: Michel Rabagliati;
Editora: Comix Zone
Nº de páginas: 208