Sweet Country – Uma balada de preconceito e injustiça

Se a conquista do oeste americano teve capítulos amargos especialmente no tocante aos violentos choques dos colonos contra os índios, a colonização da Austrália foi tão sangrenta e cruel quanto. A diferença é que o cinema australiano não conseguiu projetar mundialmente o período histórico com tanto glamour quanto Hollywood. Ambos os cenários são praticamente idênticos. Desertos, ranchos isolados, tribos hostis e episódios de preconceito e injustiça. Saem os índios, entram os aborígenes, também vítimas de massacres impiedosos pelo homem branco invasor.

Sweet Country, produção australiana conta uma dessas histórias nas quais um ser humano é considerado de uma raça inferior, uma espécie de animal servil tratado a pancadas e totalmente descartável. É um filme amargo, sobre um tempo de intransigências, onde a vida era apagada sem muito alarde. Um tempo duro, onde até os duros penavam para sobreviver.

View post on imgur.com

Harry March (Ewen Leslie) é um ex-soldado ainda traumatizado pelas campanhas de guerra que participou. Compra um rancho em uma região isolada e, sem pessoal disponível para trabalhar, pede emprestado dois ajudantes ao vizinho, Fred Smith (Sam Neill). Com a anuência do patrão, Sam Kelly (Hamilton Morris) leva sua esposa e sobrinha junto à propriedade de March. O novo vizinho se revela um homem amargo, cruel e injusto. Após alguns dias de trabalho, estupra a mulher de Sam e expulsa ele e sua família sem nem mesmo dar comida.

Harry resolve recorrer a outro vizinho, que empresta dois empregados, Archie (Gibson John) e o garoto Philomac (Tremayne Doolan e Trevon Doolan, irmãos gêmeos). Após ser espancado e acorrentado a uma pedra, Philomac foge e se esconde na propriedade de Smith. Ao perseguir o garoto, March invade a casa e termina morto por Sam. Temendo a justiça dos brancos, ele foge com a esposa. Logo, um grupo liderado pelo Sargento Fletcher (Bryan Browm) é formado para perseguir o assassino.

View post on imgur.com

Na colonização da Austrália conduzida pela Inglaterra, o povo aborígene foi atacado, assassinado e humilhado. Mesmo quando a independência foi declarada, os aborígenes continuaram sendo vítimas dos dominadores, que instituíram leis de segregação em uma tentativa de criar uma nova nação de brancos, roubando suas terras, apagando as antigas tradições do povo e deturpando suas origens, perpetuando e amplificando um racismo sistematizado. Na realidade reconstruída em Sweet Country, encontramos uma vida árida e sofrida até mesmo para os brancos, frente à situação geográfica dos ranchos, isolados em regiões desérticas. Para os aborígenes e seus descendentes, é ainda pior. Vidas sem quaisquer perspectiva. Sem direitos, sem autonomia, com sua cultura dizimada, sendo ridicularizados e maltratados, com o passado violentado e o futuro renegado.

View post on imgur.com

O patrão de Sam é uma exceção. Fred Smith é devoto da Bíblia e acredita piamente que todos os homens são iguais. Ele vê em Sam não um empregado ou escravo, mas um amigo. Tal pensamento é único na região. Se a vida até para os brancos já era difícil, para as mulheres, é ainda pior, sujeitas às limitações e desilusões da região e submetidas aos humores dos homens. A dona do saloon local é tratada como um objeto pelo Sargento, a quem ela parece se submeter mais por medo que por amor.

O roteiro é baseado em um fato real ocorrido na década de 1920 na Austrália. Segundo o diretor, se trata de um filme sobre a terra e a família, sobre o que aconteceu quando os missionários chegaram. Há uma tentativa de impor a chegada da justiça, essa representada por um jovem juiz com a mente aberta e com a nítida vontade de fazer o que está escrito na lei, mas sem intransigências. Há um breve choque de autoridade quando ele encontra Fletcher, acostumado a ser ele próprio a lei e a justiça na região.

View post on imgur.com

Porém, numa terra de fronteira, a boa vontade solitária de uma ou duas pessoas não consegue sobreviver à ignorância, corrupção e maldade de uma cidade inteira que clama pelo desejo de cortar a monotonia pelo espetáculo da forca. O calor parece intensificar a crueldade nos habitantes.

O próprio julgamento, apesar de ser um autêntico ato de justiça moderna, termina também se transformando em uma sessão de humilhação pública para os aborígenes, que têm expostas sua ignorância e intimidade à chacota de toda a cidade. O diretor Warwick Thornton intercala em meio às cenas flashes do futuro e do passado. Alguns trazem spoilers, outros esclarecem eventos já acontecidos no filme, não chegando a atrapalhar a imersão na história, apesar da quebra de ritmo que ocasionam.

View post on imgur.com

As sequências de perseguição levam a cenários inóspitos mas, ao mesmo tempo, revelam as belezas naturais da região central do país, saindo de fazendas a oásis e a desertos mortais. Uma das cenas mais memoráveis do longa é o encontro e confronto entre uma tribo ainda selvagem de aborígenes e o grupo de perseguidores, liderado pelo Sargento, o embate entre o primitivo e o civilizado. Fletcher faz o papel do cão de caça implacável, disposto a lutar até a morte por seu uniforme e por seu próprio orgulho, de homem implacável. Sua obstinação encontra apenas o fracasso frente ao conhecimento do território de Sam, que usa todos os subterfúgios para enganar, atrasar e ferir seus caçadores. Mesmo sendo descontrolado e muitas vezes cruel, o Sargento demonstra ainda ter um resquício de civilidade, revelando um roteiro esmerado na construção de personagens tridimensionais que se elevam frente aos demais.

View post on imgur.com

Em Sweet Country, os amadores surpreendem, chegando a superar os veteranos. Bryan Brown, autêntico australiano, é um rosto conhecido dos cinéfilos de mais idade. O ator trabalhou com Tom Cruise em Cocktail (1988) e em F/X: Assassinato sem Morte (F/X; 1986), filme que fez um relativo sucesso ao ponto de render uma continuação e uma série com duas temporadas, transmitida por aqui pela Globo. Outro rosto famoso é o de Sam Neil, protagonista de os primeiros Jurassic Park e que interpretou o Odin em Thor: Ragnarock. Mas quem impressiona mesmo é a atuação dos próprios aborígenes, os amadores Hamilton Morris, Gibson John e Natassia Gorey Furbe (mulher do personagem Sam), conferindo uma autenticidade sobrenatural ao filme, uma obra merecedora dos mais altos elogios em todos os aspectos.

View post on imgur.com

Sweet Country (2017)
Gênero: Drama
Duração: 1h53
Diretor: Warwick Thornton