Uma das fantasias clássicas do homem contemporâneo, com o surgimento da ficção científica, é imaginar uma viagem no tempo, para o passado, sendo recebido como alguém com inteligência superior, sabendo de coisas que ninguém ainda havia descoberto naquela época. A ilusão da superioridade vai lhe perguntarem como funciona a eletricidade de fato.
Os protagonistas de O Homem que Queria Ser Rei (The Man Who Would Be King, 1975) também são sonhadores, mas não precisaram viajar de volta no tempo para realizar a fantasia descrita no parágrafo anterior. Basta ir para uma região distante, onde comunidades vivem ainda isoladas da civilização tanto quanto possível.
Os ingleses, desbravadores, colonizadores, já se consideravam os seres superiores daquela época, em meados da década de 1880; imagine chegar a um país paupérrimo, imerso em guerras tribais infinitas, sem acesso a tecnologias como a pólvora.
Daniel Dravot (Sean Connery) e Peachy Carnehan (Michael Caine), dois ex-soldados ingleses, recusam-se a deixar a Índia e regressar à pátria, sem fama, sem profissão, sem fortuna. Acreditam que suas oportunidades ainda estão naquele continente e vivem de artifícios. Ao aplicarem um golpe no jornalista Rudyard Kipling (Christopher Plummer), acabam apreendidos pelas autoridades, mas, por serem todos maçons, além de terem conquistado a simpatia do conterrâneo, recebem apenas uma advertência.
Dravot e Peachy revelam seu grande plano a Kipling: viajar ao Kirjistão e usar suas habilidades como soldados para conquistar um reino, tal como Alexandre, o Grande, fez. Mesmo alertados sobre os imensos perigos no trajeto para tão ermo território, a dupla prossegue irredutível.
O Homem que Queria Ser Rei é um conto sobre ganância, transformações pessoais e, claro, quebra de confiança. Quando Daniel é louvado como um representante divino e eleito Rei do Kirjistão, unificado após uma breve cruzada bélica iniciada pela dupla, o objetivo inicialmente traçado muda. Para Daniel, não importa mais o ouro conquistado, mas continuar sendo adorado e querido. Ele começa a assumir o papel que lhe atribuíram, a quase acreditar que é mesmo descendente de Alexandre. Nisso, sua relação de confiança com o companheiro de jornada é estremecida.
O problema é que o Rei encontra outra força que exerce tanta influência quanto ele naquela sociedade: a religião. Dravot teima em não perceber que mesmo seus poderes são limitados por Kafu Selim, o profeta local que interpreta os sinais do Deus que eles cultuam. Sua vontade só pode ser obedecida até certo ponto.
John Huston, diretor também do clássico O Tesouro de Sierra Madre (The Treasure of Sierra Madre, 1948), com o qual guarda pontos em comum, cria uma epopeia magistral e atemporal de ascensão e queda, seja pela qualidade do roteiro, seja pela produção, apresentando o choque entre dois homens “modernos” e um mundo que existia longe dos olhos da civilização, tão distante quanto uma mítica cidade perdida.
É no aspecto da produção que as obras hollywoodianas até a década de 1970 impressionam. A impressão é que tudo o que vemos é de verdade, seja em termos de locações, cenários ou de figurantes. Tudo transborda realismo.
O filme consegue equilibrar a seriedade do tema com tons de humor negro, sustentado tanto no comportamento dos dois núcleos de personagens, os ingleses superiores e os bárbaros ingênuos, quanto nas situações que surgem em uma terra com momentos de violência e pobreza extremas.

O Homem que Queria Ser Rei (The Man Who Would Be King, 1975)
Direção: Jhon Huston
Elenco: Sean Connery; Christopher Plummer; Michael Caine
Gênero: Drama
Duração: 2h9min
