Lá atrás, em 2002, Extermínio (28 Days Later) representou uma revitalização dos filmes de zumbi. Muito disso se deveu à introdução de mortos-vivos superacelerados, ao contrário dos lentos da trilogia original de Romero. Extermínio ainda contou com a direção de Danny Boyle, um inglês que tinha uma maneira bem própria de contar histórias.
Se The Walking Dead roubou algumas ideias de Extermínio, como a de um protagonista que acorda em uma cama de hospital após o fim do mundo, o terceiro longa da franquia, A Evolução (28 Years Later), pegou alguns pontos de The Walking Dead, especificamente da fase de Alexandria da série de tv.
O protagonista é um garoto que vive em uma ilha da Escócia, junto a uma comunidade que sobrevive como dá. A sociedade parece ter feito um retorno ao período medieval, analogia reforçada pela inserção de imagens históricas de batalhas travadas pelos escoceses. Jamie (Aaron Taylor-Johnson) está empolgado porque chegou o momento de levar seu primogênito para o continente inglês, onde deverá matar seu primeiro zumbi, em um rito de passagem já estabelecido.
O filme é dividido em duas partes que funcionam como episódios de uma série. A primeira parte é uma grande aventura na qual pai e filho correm de zumbis pela floresta e, na ocasião, somos apresentados à fauna zumbi da região.
A novidade, talvez a tal Evolução do título, é o surgimento dos zumbis Alfa: contaminados de porte gigante, inclusive nas partes íntimas, que exercem influência sobre os demais e ainda possuem uma inteligência acima do normal. Temos também os “rastejantes”, zumbis lentos que se arrastam pelo chão como cobras. Sim, soa exatamente como uma gamificação da franquia.
Na segunda parte do filme, o roteirista Alex Garland tenta imprimir tons filosóficos à história, trazendo Ralph Fiennes como Dr. Kelson, um médico que ficou com fama de maluco diante de tantas mortes. Como um eremita, passou a erigir esculturas para os cadáveres. Seu discurso sobre o “memento mori” carece de profundidade, de algo que realmente provoque uma epifania no personagem e, consequentemente, contagie o público.
Extermínio: A Evolução continua escatológico, como qualquer filme decente do subgênero. Sangue, tripas, cabeças arrancadas ainda conectadas à espinha dorsal, sujeira e situações tensas são exibidos sem economia.
O lapso está na construção de bons personagens. O garoto, medroso e confuso, parece ter crescido em um condomínio de luxo, não em um mundo pós-apocalíptico. O pai é um matador, um soldado, alguém visivelmente consumido pela dor, que tenta imprimir uma vida normal de família feliz, na qual o filho vai para a escola, ele cuida da esposa doente e cumpre seu papel na comunidade, embora tenha seus defeitos morais. Deixa entrever que é um homem no limite, prestes a explodir, que tenta se apegar ao filho e, principalmente, à ação. Se toma decisões que parecem bárbaras, é motivado pela dor que finge não sentir.
A fuga do filho com a mãe não parece fazer muito sentido desde o princípio, ajudada por facilidades do roteiro, que a apresenta inicialmente como uma mulher em confusão mental, incapaz de sair da cama, mas que, de repente, consegue até enfrentar zumbis como se fosse uma Jason Bourne formada pelo projeto Treadstone.
Quando surge uma espécie de equipe de matadores de zumbis, a primeira referência que pulou na minha mente foi Laranja Mecânica. E não foi caso isolado. Vasculhando algumas opiniões pela internet, confirmei que muita gente também associou o grupo à gangue de Alex. O que acontece, então, é o absurdo pulando na cara da audiência. A cena parece uma mistura de Laranja Mecânica com Power Rangers, filmada em ritmo de videoclipe, com toques de Zack Snyder (sim, ação com câmera lenta aqui e ali).
Há um fim que não é fim, levando muitos fãs a aguardarem o próximo capítulo da franquia na esperança de que algo faça sentido, que o que não deu certo nesse, seja corrigido no seguinte, ou simplesmente só deseje mais sangue e tripas saltando na tela.

Extermínio: A Evolução (28 Years Later, 2025)
Direção: Danny Boyle
Gênero: Terror
Elenco: Aaron Taylor-Jhonson; Ralph Fiennes; Jodie Comer
Duração: 1h55min
