No tempo das videolocadoras lembro de alguns títulos que passava os olhos pela prateleira, pegava a caixa, lia a sinopse atrás mas, por uma razão ou outra, sempre acabava deixando de lado e alugava outra coisa.
Homem Morto (Dead Man, 1995) foi um desses filmes. A razão chuto que fora por ser preto e branco. Na época claro que reconhecia o Jhonny Depp, mas nem tinha ideia de quem era Jim Jarmusch. Não lembrava de já ter me entediado com o seu Uma Noite Sobre a Terra (Night on Earth, 1991).
Só vim a conhecer a genialidade do diretor indie tarde demais, no vampiresco Amantes Eternos (Only Lovers Left Alive, 2013). Sua produção seguinte, Os Mortos Não Morrem (The Dead Don’t Die, 2019) foi uma decepção.
Cheguei em Flores Partidas (Broken Flowers, 2005) por conta da atuação de Bill Murray em Encontros e Desencontros (Lost in Translation, 2003). Se não é tão bom quanto o longa da Sofia Coppola, posso afirmar que Jarmusch acertou de novo comigo. O fato é que a maior parte da filmografia dele ainda me é inédita. Os títulos não são exatamente fáceis de encontrar por aí. Dead Man talvez seja exceção por conta da fama que Depp alcançou.
Depois de 30 anos, chegou o momento de finalmente ‘pegar aquele dvd que sempre deixava pra trás na locadora’. Às vezes nosso instinto acerta.
William Blake (Jhonny Depp) embarca em um trem para viajar até os confins do oeste americano para assumir uma vaga de contador na Metalúrgica Dickinson. Ao chegar ao destino, recebe a notícia de que sua vaga já foi preenchida por outra pessoa. Sem dinheiro, vaga pela cidade até o saloon, onde conhece a vendedora de flores de papel Thel Russell (Mili Avital), que o leva até o seu quarto. No encontro, Blake se vê obrigado a matar um homem para sobreviver e então foge para a floresta, sendo perseguido por caçadores de recompensas.
As situações construídas pelo roteiro são ótimas. Blake é um jovem tímido, assustado, que resolve sair do conforto de sua terra natal para começar a vida no oeste selvagem. Tal qual avisado por um passageiro no trem, encontra uma série de decepções. Como costuma acontecer aos jovens no cinema, seus problemas aumentam quando encontra uma garota bonita.
Homem Morto é um faroeste que retrata o velho oeste de forma mais realística, cidades sujas (ruas enlameadas), gente ignorante (o passageiro do trem que não sabia ler nem acreditava nas palavras escritas em papel), insensível (capaz de empurrar uma garota na lama), o livre e aberto preconceito contra indígenas e negócios fechados na base da ameaça.
O filme tem um tom de humor negro que mistura situações improváveis com personagens inusuais. Essa é a marca do diretor. No elenco temos a participação de Robert Mitchum como Dickinson, o proprietário da metalúrgica que nega a vaga ao protagonista. Personificando o espírito daquela época e lugar, Dickinson opera pelo poder do dinheiro, que o dá permissão a estar certo mesmo quando está errado.
O ritmo lento da narrativa não seria exatamente um problema, mas a insistência das notas solitárias na trilha incidental massacram a audiência, esticando o tempo de tela. A música ficou a cargo de Neil Young. Seria interessante, não fosse o excesso de sons de uma nota só que são inseridos continuamente e se tornam uma espécie de tortura martelando o cérebro da audiência.
A impressão é que o tempo corre solto na tela e a história não tem exatamente mais o que mostrar além de esticar a perseguição ao protagonista, que se torna cada vez mais mortal. A forma como os homens matam e são mortos denota uma brutalidade vazia, sem sentido, própria daquela época, uma espécie de embrião da civilização moderna, uma nova chance de começar do zero, mas que se torna apenas uma repetição da história da humanidade. Blake, alguém que tinha dedicado sua vida à família e à educação, se vê em um ambiente em que aquilo não tem valor, só vale a capacidade de expressar força.
Notem que o índio que o auxilia, Nobody (Gary Farmer), também recebera a educação formal dos brancos, ao ponto em que confunde o William Blake que encontra com o famoso mas falecido poeta inglês e assim o tenta ajudar a encontrar o caminho para o mundo dos espíritos. Blake, o contador, com um ferimento mortal no peito, não vê alternativa a não ser seguir no caminho que a vida o levou.
O jovem Depp caiu muito bem na proposta do filme, interpretando alguém que não se encaixa no meio onde está. Afinal, o personagem parecia nem mesmo se encaixar em sua região de origem, tanto que aceita migrar para o desconhecido. Lá, a sensação de deslocamento piora, embora ele pareça desta vez se adaptar ao ambiente. O Blake de Depp é um jovem nervoso, assustado, que passa por uma transformação, se tornando um pistoleiro mortal, se moldando ao seu novo meio.

Homem Morto (Dead Man, 1995)
Diretor: Jim Jarmusch
Gênero: Faroeste; Drama
Elenco: Johnny Depp; Roberto Mitchum; Lance Henriksen; John Hurt; Gary Farme
Duração: 2h1min
