A Balada de Buster Scruggs – Histórias do velho oeste

Os irmãos Coen conseguem a proeza de criarem “filmes artísticos” e ao mesmo tempo serem comerciais, mas ser comercial em tempos de Marvel Studios é complicado. Não conseguiram um grande estúdio para apostar em um projeto de western contando vários contos. O gênero não é um dos favoritos há tempos, e muito menos o formato que pretendiam. A solução foi recorrer à Netflix. A gigante do streaming tem uma má fama de, até quando dirigidas por grandes cineastas, suas produções próprias não empolgarem. A Balada de Buster Scruggs talvez, de fato, não seja comercial o bastante para arrecadar faturar quantias astronômicas na grande tela nesses tempos heroicos e, por isso mesmo, não consiga empolgar a grande faixa de assinantes do serviço mas, sem dúvidas, é mais um filme de qualidade ímpar na carreira dos irmãos.

A Balada de Buster Scruggs se trata de seis histórias ambientadas no velho oeste, sendo narradas a partir de um livro de contos. Elas não têm relação direta umas com as outras, mas apresentam situações características daquele período: enforcamentos de ladrões, assaltos a bancos, grandes caravanas cruzando o território índio, duelos de pistoleiros na rua principal, disputas por veios de ouro, viagens em diligências e os espetáculos itinerantes apresentando fatos espetaculares ou coisas bizarras que cruzavam aquela parte do território americano em busca de público.

O primeiro elemento que chama a atenção no filme é a fotografia, enfocando os cenários naturais e ambientes típicos do velho oeste. No boteco vemos detalhadamente a poeira no chão de madeira, as paredes rachadas, o balcão e estantes com bebidas, além do visual dos frequentadores, mais parecendo animais que homens, vindos de regiões desérticas, estando a não se sabe quantos dias na estrada, reforçando bem o conceito de vida no oeste “selvagem”. E esse esmero visual se repete nas cidades, no interior de saloons, bordéis e bancos, dentro de uma diligência ou nas pradarias.

A morte, presente em todas as histórias, lembra como a vida era inconstante, desvalorizada e árdua naquela época e região. Os contos, apesar do predomínio do western, passeiam por outros gêneros, apresentando misturas de drama, romance, terror, musical e comédia. Aliás, muitos observam que praticamente todos os filmes dos irmãos Coen são, de alguma forma ou em algum ponto, westerns. Veja atentamente Gosto de Sangue, Arizona Nunca Mais, Fargo e Onde Os Fracos Não Tem Vez e perceberá que a teoria tem sentido. Nesse caso, os diretores fizeram a fórmula inversa, um western que na verdade abriga outros gêneros.

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The Ballad of Buster Scruggs

O primeiro conto, com o Buster Scruggs (Tim Blake Nelson) do título, é uma comédia canastrona, com toques de musical que podem até expulsar um espectador mais careta. Lembra bastante um dos antigos desenhos da Warner, dos Looney Tones, com direito a nuvem de poeira no formato do corpo do personagem e até a fantasma saindo de um corpo sem vida, subindo aos céus com um par de asas e tocando harpa. O Buster é o clássico fora da lei dedo fácil no gatilho, mas parece um pateta fanfarrão e sorridente, capaz de pôr todo o saloon para cantar junto a ele espontaneamente mesmo após ter matado um cliente.

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Near Algodones

No segundo conto, temo James Franco como um assaltante que encontra um banco no meio do nada e resolve fazer um saque fácil. O problema é que o velhinho que toma conta do local é jogo duro. Aqui a comédia continua, mas perde um pouco mais o tom cartunesco em relação ao primeiro. Um exemplo da justiça sumária aplicada naqueles tempos em que só era preciso encontrar uma árvore e ter uma corda à mão para se livrar de um ladrão.

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Meal Ticket

O terceiro conto é estrelado por um silencioso Liam Neeson, um senhor que vai de cidade em cidade levando um narrador de histórias com características físicas incomuns, um sujeito sem braços e pernas (Harry Melling). Aqui o tom muda para um drama amargo, sendo essa a história mais triste do longa. Os personagens de Neeson e de Melling vivem uma vida nômade, solitária e difícil, sem nenhuma satisfação aparente, a não ser uma garrafa de bebida ou uma visita ocasional a um prostíbulo. O narrador de histórias parece um robô, um objeto, transmitindo melancolia e tristeza por meio de dois olhos azuis capazes de fazer um cachorro chorar. A vida parece piorar ainda mais porque, a cada cidade em que chegam, a renda da bilheteria diminui e o “meal ticket” do título fica mais difícil.

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All gold canyon

O quarto conto, “All Gold Canyon”, também se mantêm no gênero drama, apresentando um solitário garimpeiro, interpretado por Tom Waits, chegando praticamente no tal final do arco íris das fábulas, um córrego próximo às montanhas, cenário digno de animação da Disney. O local aparenta ser intocado pelo homem, e a chegada do garimpeiro perturba os animais locais, ainda que ele mostre bastante respeito pela natureza, como demonstra no ato de retirar apenas um ovo de um ninho de coruja, deixando os demais. O ritmo é lento, o velho fala sozinho, os dias passam, e o esforço dá resultado, tudo parece extremamente desinteressante, mas então explodem a violência e a injustiça típicas em um lugar isolado, gerando tensão, angústia e ódio. História baseada em um conto de Jack London.

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The Gal who got rattled

Até então este parece estar sendo indicado como o melhor conto da película. Alguns malas poderão até dizer que é o único que de fato é bom, ou o que tem o potencial mais comercial. Alice Longabaugh (Zoe Kazan) embarca com o irmão em uma caravana em direção a uma vida melhor em outra região. No destino, ela poderá se casar com um homem decente e começar uma família. Porém, no percurso, o irmão adoece e morre repentinamente, a deixando sozinha. Resta a ela buscar os conselhos dos guias da caravana, Arthur (Grainger Hines) e Billy Knapp (Bill Heck). Este conto começa como um drama, desemboca em um romance e explode em uma ação espetacular com um final arrebatador.

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The mortal remains

Comédia e terror. Uma viagem de diligência onde cinco passageiros vão conversando e se desentendendo pelo caminho e, não importa o que aconteça, o cocheiro jamais para. É tudo focado nos diálogos, o que faz lembrar inevitavelmente o recente Os Oito Odiados de Tarantino. A fotografia em tons de cinza e azul conferem morbidez ao clima durante a viagem noturna, influenciando a imaginação dos personagens. Acontece que um dos passageiros é um caçador de recompensas, conduzindo o cadáver de um foragido em cima da diligência, o que impressiona os demais. Como encerramento, é fraco, ainda mais após a apoteose do último conto. Tem seu mérito, mas faz apenas despertar a expectativa da subida dos créditos finais.

Quem não curte as excentricidades dos irmãos Coen, esse filme dificilmente vai desfazer a antipatia pela dupla.

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A Balada de Buster Scruggs (The Ballad of Buster Scruggs, 2018)
Diretor: Ethan Coen; Joel Coen
Gênero: Western
Duração: 2h13min